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  • Entre o “não quero” e o “não consigo”: como lidar com a recusa da criança

A criança nem sempre precisa gostar de uma tarefa para conseguir realizá-la.

“Vai arrumar o seu quarto.”

A criança sabe arrumar. Já fez isso outras vezes. Mas, naquele momento, não quer. Reclama, se recusa, começa a gritar e a situação rapidamente vira uma crise.

Para os pais, é comum surgir uma dúvida:

Se ela tem capacidade para fazer, devo manter a exigência?

Ou, se está desregulada, preciso retirar a tarefa?

Quando uma criança se recusa a fazer tarefas, nem sempre é simples identificar o que está acontecendo. Ela pode não querer realizar aquela atividade, encontrar dificuldades reais para executá-la ou ficar emocionalmente desregulada diante da frustração.

Nem sempre existe uma resposta simples. Mas existe uma distinção importante: acolher a desregulação não significa retirar automaticamente a demanda.

Uma criança pode saber fazer algo, não querer fazer e realmente se desregular diante da frustração. Essas situações podem acontecer ao mesmo tempo.

Entender essas diferenças ajuda os pais a decidir quando oferecer suporte, quando fazer uma pausa e como manter os limites sem transformar cada responsabilidade em uma batalha.

Criança não quer ou não consegue fazer uma tarefa?

Crianças também não querem fazer coisas chatas.

Arrumar o quarto, interromper o videogame, tomar banho, começar a tarefa escolar ou guardar os brinquedos competem com atividades mais interessantes. A recusa pode começar simplesmente porque a criança preferia não fazer aquilo.

Isso não significa que tudo o que acontece depois seja intencional.

Ela pode protestar, perceber que a exigência será mantida, ficar cada vez mais frustrada e chegar a um ponto em que já tem mais dificuldade para controlar a própria reação.

Por isso, nem sempre funciona dividir as situações em duas categorias:

“Ela está desregulada.”

ou

“Ela está fazendo isso para conseguir o que quer.”

Uma coisa não necessariamente exclui a outra.

A criança pode querer escapar de uma tarefa e, ao mesmo tempo, ter dificuldade real para lidar com a frustração de precisar realizá-la.

Por que uma tarefa simples pode ser tão difícil para uma criança?

Também precisamos tomar cuidado ao afirmar: “Mas ela sabe fazer.”

Arrumar um quarto parece uma única tarefa, mas exige várias habilidades: interromper o que estava fazendo, começar uma atividade pouco interessante, decidir por onde começar, organizar etapas, manter a atenção e chegar até o final.

Tudo isso envolve funções executivas.

Planejamento, memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade fazem parte desse conjunto de habilidades e ajudam a criança a iniciar, organizar e concluir tarefas. Pesquisas mostram que dificuldades nessas áreas aparecem com frequência em diferentes condições do neurodesenvolvimento.

Além disso, o desempenho nessas habilidades pode variar conforme o momento e o contexto. Cansaço, estresse ou sobrecarga podem tornar uma tarefa mais difícil.

Essa influência do contexto também ajuda a compreender por que família e escola podem observar comportamentos tão diferentes na mesma criança.

Então, antes de concluir que a criança simplesmente “não quer obedecer”, vale perguntar:

O que exatamente está difícil aqui?

Talvez ela saiba arrumar o quarto, mas não consiga organizar sozinha uma tarefa tão ampla. Nesse caso, “coloque primeiro as roupas no cesto” pode funcionar melhor do que “arrume tudo”.

Oferecer esse suporte não significa fazer pela criança, mas tornar a tarefa mais possível de ser realizada com autonomia.

Como lidar com a recusa da criança sem retirar os limites?

Existe outro lado importante dessa conversa.

Imagine que a sequência aconteça com frequência:

O adulto pede uma tarefa.

A criança se recusa.

O adulto mantém o pedido.

A criança grita, chora ou aumenta a intensidade do comportamento.

Então o adulto desiste da tarefa.

Quando esse padrão se repete, existe o risco de a criança aprender algo que ninguém planejou ensinar:

Quando a recusa fica intensa o suficiente, a demanda desaparece.

Os princípios da aprendizagem mostram que aquilo que acontece depois de um comportamento pode influenciar a probabilidade de ele voltar a acontecer. Em alguns casos, quando um comportamento resulta repetidamente na retirada de uma tarefa desagradável, essa consequência pode contribuir para que ele se mantenha.

Isso não significa chamar a criança de manipuladora.

Também não significa afirmar que ela pensou: “Vou ter uma crise para conseguir escapar”.

Um comportamento não precisa ser resultado de um plano consciente para ser influenciado pelas consequências que produz.

E um episódio isolado também não é suficiente para concluir por que determinado comportamento acontece. É preciso observar padrões, contexto e o que costuma acontecer antes e depois.

Por isso, uma pergunta mais útil talvez não seja:

“Ela fez isso de propósito?”

Mas:

“O que costuma acontecer depois que ela reage dessa maneira?”

O que fazer quando a criança entra em crise diante de uma tarefa?

Se a criança já está muito desregulada, insistir naquele momento pode transformar a tarefa em uma disputa cada vez maior.

Longos sermões, ameaças, várias instruções seguidas ou repetir “você vai fazer porque eu mandei” dificilmente tornam a criança mais disponível para ouvir, se reorganizar e aprender naquele momento.

Pode ser necessário interromper a discussão e permitir que ela recupere condições para continuar.

Mas existe uma diferença importante entre:

“Vamos parar agora e retomar quando você estiver em condições de continuar.”

e

“Você ficou muito nervoso, então não precisa mais fazer.”

No primeiro caso, existe uma pausa.

No segundo, a demanda desapareceu.

A criança pode precisar de tempo, ajuda ou de uma tarefa dividida em partes menores. Mas, se a responsabilidade é adequada para sua idade e capacidade, ela não precisa desaparecer apenas porque houve uma desregulação.

Não precisamos eliminar toda frustração

Esse talvez seja um dos pontos mais difíceis para quem cuida.

Queremos evitar sofrimento desnecessário. E crianças neurodivergentes realmente podem precisar de adaptações, previsibilidade e níveis diferentes de suporte.

Mas adaptação não significa eliminar qualquer experiência desconfortável.

Uma criança também precisa, gradualmente, aprender que pode:

“não estar com vontade”;

“achar muito chato”;

“ficar frustrada”;

e, ainda assim, conseguir realizar aquilo que precisa ser feito.

O objetivo não é fazer com que a criança goste de todas as responsabilidades. É ajudá-la a desenvolver recursos para enfrentar aquilo que não gosta sem ser dominada pela frustração.

A responsabilidade permanece, o suporte se ajusta

Voltando ao quarto, talvez a resposta não seja obrigar a criança a organizar tudo no auge da crise. Mas também não precisa ser desistir da tarefa.

Depois que ela estiver novamente disponível, o adulto pode dizer:

“Eu sei que você não queria arrumar. Mesmo assim, precisamos fazer. Você quer começar pelas roupas ou pelos brinquedos?”

Ou:

“Eu te ajudo a começar. Depois você continua.”

A responsabilidade permanece.

O que muda é o suporte.

Com o tempo, esse suporte também pode diminuir. Primeiro o adulto faz junto. Depois ajuda apenas a começar. Mais adiante, apenas lembra. Até que a criança consiga assumir aquela responsabilidade com maior independência.

Esse processo faz parte da construção da autonomia da criança neurodivergente, que precisa começar muito antes da vida adulta e respeitar as possibilidades de cada pessoa.

É assim que construímos autonomia: não fazendo tudo pela criança, mas também não exigindo uma habilidade que ela ainda não consegue sustentar sozinha.

O que fazer quando a criança se recusa a realizar uma tarefa?

Não existe uma única resposta para todas as situações. Mas alguns cuidados podem ajudar os adultos a compreender o que está acontecendo e oferecer o suporte necessário:

  1. Verifique se a tarefa está adequada. A criança compreende o pedido? Tem condições de realizar aquela responsabilidade naquele momento?
  2. Observe o estado emocional. Quando a criança está muito desregulada, pode ser necessário ajudá-la a se reorganizar antes de retomar a tarefa.
  3. Divida a atividade em etapas menores. Em vez de pedir que arrume todo o quarto, comece por guardar as roupas ou organizar os brinquedos.
  4. Ofereça ajuda sem assumir toda a responsabilidade. Fazer junto no início pode ser o suporte necessário para que a criança consiga continuar.
  5. Retome o combinado quando houver condições. Uma pausa pode ser necessária, mas isso não significa que a responsabilidade precisa desaparecer.

O objetivo não é conseguir obediência imediata a qualquer custo, mas ajudar a criança a desenvolver, gradualmente, condições para realizar suas responsabilidades com maior autonomia.

Antes de perguntar “como faço meu filho obedecer?”

Talvez existam perguntas melhores:

A tarefa está adequada à capacidade da criança?

Ela sabe exatamente o que precisa fazer?

O pedido é amplo demais?

Precisa de ajuda para começar?

Esse comportamento aparece diante de qualquer responsabilidade ou principalmente de algumas tarefas?

O que costuma acontecer quando ela se recusa?

E, principalmente:

Como podemos ajudá-la a enfrentar essa responsabilidade sem transformar cada demanda em uma batalha?

Acolher uma criança desregulada não significa ensinar que ela só precisa cumprir responsabilidades quando estiver confortável. Da mesma forma, manter um limite não significa ignorar aquilo que está difícil.

Entre desistir da demanda e exigir obediência no meio de uma crise existe outro caminho: compreender o que aconteceu, ajudar a criança a se reorganizar, oferecer o suporte necessário e retomar a responsabilidade.

O objetivo não é evitar toda frustração, mas ajudar a criança a desenvolver recursos para lidar com ela. E, aos poucos, conseguir fazer também aquilo que precisa ser feito — mesmo quando não está com vontade.

Chris Pimenta

SingularMente – Espaço de Ser

Referências consultadas

Center on the Developing Child at Harvard University. A Guide to Executive Function. Material sobre funções executivas, autorregulação e desenvolvimento dessas habilidades.

Center on the Developing Child at Harvard University. Three Principles to Improve Outcomes for Children and Families. Material sobre desenvolvimento de habilidades de autorregulação e os efeitos do estresse sobre essas capacidades.

Sadozai, A. K.; Sun, C.; Demetriou, E. A. et al. Executive function in children with neurodevelopmental conditions: a systematic review and meta-analysis. Nature Human Behaviour, v. 8, p. 2357–2366, 2024.

Geiger, K. B.; Carr, J. E.; LeBlanc, L. A. Function-Based Treatments for Escape-Maintained Problem Behavior: A Treatment-Selection Model for Practicing Behavior Analysts. Behavior Analysis in Practice, v. 3, n. 1, p. 22–32, 2010.

Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Tips for Responding to Behavior e Tips for Using Consequences. Essentials for Parenting Toddlers. Materiais sobre comportamento, consequências e consistência.

Singularmente

Mais do que uma marca, é um movimento que celebra a individualidade, destacando o potencial único de cada ser humano.

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