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  • Do Acolhimento à Prática: Estratégias Reais para Apoiar Crianças com Dupla Excepcionalidade

No último artigo, nós conversamos sobre a Dupla Excepcionalidade (2e) e sobre como uma criança pode apresentar, ao mesmo tempo, altas habilidades e desafios importantes ligados ao neurodesenvolvimento.

Mas depois que a família entende isso, quase sempre vem a pergunta mais difícil:

“E agora? Como eu ajudo meu filho na prática?”

E eu entendo profundamente essa angústia.

Porque, na vida real, não basta apenas ter um diagnóstico/identificação ou suspeita. A rotina continua acontecendo. Tem escola, tarefas, crises emocionais, cansaço, frustrações… e pais tentando descobrir como apoiar sem apagar o brilho daquela criança.

Com o tempo — e depois de muitos tropeços aqui em casa — eu percebi uma coisa importante: crianças 2e precisam de suporte duplo. E essa não é só uma percepção de mãe. É também o que pesquisadores como Baum, Schader e Owen defendem há anos nas principais referências sobre dupla excepcionalidade: crianças 2e não devem ter o foco apenas em “corrigir déficits”. Elas se desenvolvem melhor quando suas potencialidades também são vistas, estimuladas e respeitadas.

Não funciona focar só na dificuldade.
Mas também não funciona enxergar apenas o potencial.

A chave está em construir estratégias que preservem a autoestima, enquanto ajudam a criança a funcionar melhor no dia a dia.

E algumas pequenas mudanças fazem uma diferença enorme.

Vou citar agora algumas combinações e estratégias, que costumam funcionar.

Superdotação + TEA: menos cobrança social, mais previsibilidade

Muitas crianças 2e com TEA passam o dia inteiro tentando se adaptar socialmente na escola. Quando chegam em casa, estão esgotadas.

Por isso, uma das estratégias mais importantes é criar um ambiente de descompressão antes de exigir qualquer coisa.

Às vezes, a criança não precisa conversar imediatamente, nem contar como foi o dia. Ela precisa primeiro regular o sistema nervoso. Algumas, se regulam melhor ficando em silêncio, enquanto outras, precisam balançar o corpo, ouvir música repetitiva ou ficar um tempo sozinhas.

Outra coisa que ajuda muito é parar de esperar que ela “entenda naturalmente” nuances sociais. Ironias, sarcasmos, indiretas e até expressões faciais podem precisar ser ensinados de forma explícita. 

Usar o hiperfoco como ponte

Se a criança ama astronomia, dinossauros, mapas, bandeiras ou trens… use isso a favor dela.

Pesquisadores como Amend e colaboradores mostram que interesses intensos podem funcionar como portas de entrada para:

  • ampliar repertório,
  • estimular flexibilidade cognitiva,
  • fortalecer vínculo,
  • desenvolver aprendizagem.

O hiperfoco não precisa ser combatido o tempo todo. Muitas vezes, ele é justamente o caminho da conexão.

Superdotação + TDAH: o cérebro precisa de apoio visível

Esse é o famoso perfil que muitos especialistas descrevem como:

“Um cérebro de Ferrari com freios de bicicleta.”

A metáfora ficou conhecida através dos estudos de Edward Hallowell e John Ratey sobre TDAH. E ela faz muito sentido.

Essas crianças costumam ter ideias brilhantes, raciocínio rápido, criatividade intensa… mas encontram enorme dificuldade em:

  • organizar tarefas,
  • iniciar atividades,
  • manter sequência,
  • concluir processos,
  • sustentar atenção em tarefas repetitivas.

Uma das maiores armadilhas com esse perfil 2e, é acreditar que a inteligência elimina dificuldade executiva. Não elimina.
E dar bronca não resolve isso. 

O que costuma funcionar melhor é tirar a organização da cabeça e colocar no ambiente.

Checklist na parede:

  • Rotina visual
  • Alarmes
  • Passo a passo simples

O cérebro precisa “enxergar” a estrutura.

Outra estratégia que pode ajudar, é dividir atividades grandes em blocos pequenos. 

Ao invés de dizer: “Vai fazer a tarefa.” Diga: “Comece pelas três primeiras questões.”
Dessa forma, parece ser mais possível.

Lembre-se: Se ela já entendeu o conteúdo, insistir em dezenas de exercícios parecidos, geralmente aumenta irritação, desatenção e resistência. E isso pode destruir o engajamento.

Superdotação + Dislexia: inteligência não é medida pela escrita

Muitas vezes a criança fala de forma sofisticada, pensa profundamente, cria conexões incríveis… mas sofre para ler ou escrever.

E começa a acreditar que é menos capaz por causa disso e a autoestima fica lá embaixo.

Os pesquisadores Brock Eide e Fernette Eide explicam que muitos disléxicos de alto potencial possuem um pensamento predominantemente visual, espacial e global.

Ou seja:
O problema não está na inteligência, mas na via de processamento.

O que costuma ajudar na prática?

Separar inteligência de escrita

Seu filho pode compreender ideias extremamente complexas e ainda assim ter dificuldade para decodificar palavras rapidamente.

Uma coisa não invalida a outra.

Tecnologias assistivas ajudam muito:

  • audiolivros,
  • leitores de tela,
  • digitação por voz,
  • teclado ao invés de escrita manual.

O objetivo é permitir acesso ao conhecimento sem limitar a aprendizagem à leitura tradicional.

Valorizar respostas orais

Muitas vezes, quando a criança fala, aparece um nível de compreensão completamente diferente daquele visto no caderno.

E isso precisa ser considerado.

Nem toda inteligência consegue se expressar bem no papel.

Usar mapas mentais e recursos visuais

Muitas crianças 2e com dislexia organizam melhor o pensamento por imagens e conexões amplas do que por texto linear.

Mapas mentais, esquemas visuais, cores e diagramas costumam reduzir a sobrecarga cognitiva.

Teste diferentes estratégias para encontrar o que funciona pra ele.

Superdotação + Disgrafia ou Discalculia: nem sempre o erro mostra o verdadeiro potencial

Aqui, frequentemente, vemos crianças brilhantes sendo julgadas apenas pelo resultado final visível.

A letra ilegível.
O caderno bagunçado.
A conta errada.

Enquanto isso, o raciocínio sofisticado que existe por trás passa despercebido.

Na disgrafia

O esforço motor necessário para escrever pode consumir tanta energia mental que sobra pouco espaço para organizar ideias.

Por isso, adaptações fazem diferença:

  • uso do teclado,
  • menos cópias extensas,
  • folhas com maior espaçamento,
  • flexibilização do registro escrito.

Isso vai ajudar a remover uma barreira mecânica para que a inteligência consiga aparecer.

Na discalculia

Muitas crianças compreendem conceitos matemáticos complexos, mas falham na automatização numérica básica.

Elas entendem a lógica. Mas tropeçam na execução operacional.

Nesses casos, recursos de apoio podem ajudar:

  • tabelas,
  • materiais visuais,
  • calculadora em determinadas situações,
  • organização passo a passo.

O foco precisa estar no raciocínio, não apenas na memorização mecânica.


O que mais transforma uma criança 2e

Se eu pudesse deixar apenas uma mensagem para as famílias que vivem essa realidade, seria essa:

Seu filho precisa se sentir compreendido antes de conseguir florescer.

Crianças com dupla excepcionalidade costumam perceber muito cedo que são diferentes.

Elas sabem que conseguem fazer coisas extraordinárias em algumas áreas…
e não entendem por que travam justamente em tarefas consideradas “simples”.

Isso pode gerar:

  • vergonha,
  • ansiedade,
  • autocrítica severa,
  • sensação de fracasso,
  • sentimento de não pertencimento.

Kazimierz Dabrowski, psiquiatra e pesquisador do desenvolvimento humano, descreveu como pessoas superdotadas frequentemente vivem intensidades emocionais muito acima da média — aquilo que ele chamou de sobre-excitabilidades.

E quando essa intensidade encontra incompreensão constante, o sofrimento emocional cresce.

Por isso, conversar abertamente com a criança sobre como o cérebro dela funciona, pode ser libertador. Explique com simplicidade, sem rótulos assustadores e sem transformar a singularidade dela em defeito.

Algo como:

“Seu cérebro aprende de um jeito muito intenso e muito rápido em algumas áreas. Mas existem outras partes que precisam de ferramentas diferentes para acompanhar esse ritmo. E nós vamos descobrir juntos quais ferramentas ajudam você.”

Uma criança que se sente acolhida começa, aos poucos, a parar de lutar contra si mesma. E talvez esse seja o maior objetivo de todos.

Aqui no SingularMente, nós acreditamos que a inclusão nasce quando construímos pontes respeitando quem cada criança é.

A trajetória da dupla excepcionalidade pode ser desafiadora, sim.
Mas ela também pode ser profundamente bonita quando existe conhecimento, acolhimento e suporte adequado no caminho. 🧡

Chris Pimenta
SingularMente – Espaço de Ser

Singularmente

Mais do que uma marca, é um movimento que celebra a individualidade, destacando o potencial único de cada ser humano.

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